segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Transpobre Público

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Depois de uma hora e vinte minutos finalmente consegui meu lugarzinho sentado, afinal, depois de trabalhar o dia inteiro em pé, e depois de quase ser pisoteado no metrô, eu mereço um descanso para as minhas pernas, que já não sinto mais.
Ao entrar no ônibus me deparo com uma música no último volume, música...? Um ritmo sem pé nem cabeça que a cobradora descabelada cantava de trás pra frente.
Lá fora o céu desaba em forma de chuva.
Procuro me concentrar em minha leitura, mas é impossível com esta música, os vidros do ônibus todos fechados e embaçados enquanto os passageiros em pé se acotovelam no corredor.
A chuva não pára, sentado no banco de trás está um senhor que não para de tossir, me pergunto quantas “caninhas” ele tomou antes de embarcar e torço para que ele pelo menos se lembre de por a mão na boca.
A moça do banco da frente abre a janela (Ufa! Um pouco de ar puro finalmente) e arremessa um isopor onde ela acabara de comer batatas fritas levemente engorduradas, com maionese e catchup, diga-se de passagem, e torna a fechar a janela onde pode-se ver claramente suas digitais no vidro.
No banco de trás o homem continua cuspindo os pulmões enquanto em pé no corredor, uma mulher com um decote que termina no umbigo, e uma mini-saia onde é possível ver a janela do outro lado do ônibus por entre as suas pernas, agride um rapaz que supostamente fez algum comentário “malicioso”.
Depois de vinte minutos parado no mesmo farol o motorista avisa: __ Aí pessoal, tá tudo alagado!Vamu ter qui isperá a água baixá!
A música, a tosse, o calor, a senhora sentada ao meu lado falando ao celular sobre as “perversões” da sua “amiga” no trabalho pra quem quiser ouvir, o trânsito e a água subindo cada vez mais.
Desembaço o vidro da janela e vejo um isopor, ainda sujo de catchup, boiando com outras dezenas de embalagens, pacotes e garrafas, e a pergunta que vem a mente é:
“Será que consigo chegar em casa hoje?”

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[Foto: Jornal Último Segundo]

4 comentários:

Ana disse...

Pois é Sam tu descreves de uma forma tão detalhada até o mais pequeno dos pormenores que por momentos me consegui transportar para dentro desse "onibus"!!!
Dá a sensação de a minha pele absorveu a mistura de cheiros que pairavam lá!!
E quando o homem tosse dá vontade mesmo de baixar a cabeça num discreto encolher de ombros...
Há dias que são um autêntico desespero,ainda mais quando nos encontramos compartilhando um pequeno espaço com muitas outras pessoas!
Mas vejo que chegaste a casa e tiveste o descanso merecido!
Sam tu és sem duvida rigoroso na descrição de pequenos detalhes que fazem toda a diferença para quem lê,
Mais uma vez e aliás como sempre adorei,

Beijinhoo bem docee,:)*

Karlinne disse...

Sam, eu sei bem como é essa realidade, a diferença é que aqui não tem metrô [ainda]. Faz duzentos anos que tentam construir um, mas acho que só no próximo milênio sai.

Quero deixar claro, que continuarei vindo aqui te ler, apenas não colocarei mais postagens, sabe? E espero que você volte SEMPRE para casa. E bem, apesar da correria do dia-a-dia.

:)

Ana disse...

LOL

Fabuloso, Sam!

Vem, vem para casa. Pois a tua casa n~~ao é uma simples morada, mas o sítio onde tens os nossos abraços te esperando.

Beijo

nuvem disse...

Ufa... Que dia esse! Aqui em Portugal, costumamos dizer "Há dias de manhã em que à tarde não se deve sair à noite" hehehe assim estás tu! :)

Gostei do texto. Beijos